Alimentos e energia pressionam inflação

Puxada, principalmente, pela alta dos alimentos, da energia elétrica e dos custos de saúde, a prévia da inflação oficial voltou a acelerar em maio, refletindo pressões mais disseminadas no custo de vida dos brasileiros. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15) avançou 0,62% no mês, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O indicador veio acima das expectativas do mercado, que projetava alta de 0,53% na primeira quinzena do mês. Ainda assim, a variação representa desaceleração em relação a abril, que registrou 0,89%. No mesmo período de 2025, a taxa havia sido de 0,36%.

Entre os nove grupos de produtos e serviços pesquisados, oito registraram elevação nos preços. O grupo de alimentação e bebidas voltou a pesar no resultado, com alta de 1,38% no mês. O avanço foi influenciado, principalmente, pelo encarecimento de itens básicos da mesa das famílias, como batata-inglesa, tomate, leite longa vida e carnes.

As contas de energia elétrica subiram 2,16% no mês, refletindo a adoção da bandeira amarela nas tarifas residenciais. A medida, definida pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), implica cobrança adicional de R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos, para induzir o consumidor a economizar ao longo do período de queda dos níveis dos reservatórios.

Já o grupo de saúde e cuidados pessoais avançou 1,05% em maio, impulsionado pela alta dos produtos de higiene pessoal, dos medicamentos e dos planos de saúde.

Na avaliação da Warren Investimentos, o resultado veio acima das expectativas do mercado e da própria instituição, mas não indica deterioração mais intensa do cenário inflacionário. "A leitura qualitativa sugere que o cenário inflacionário não apresentou deterioração adicional na margem. A aceleração mensal foi explicada por componentes específicos e voláteis", destacou a casa em relatório.

Segundo a Warren, o grupo habitação surpreendeu com aceleração de 1,03%, pressionado pelo aumento do gás de botijão e da energia elétrica residencial. O grupo saúde e cuidados pessoais também veio acima das projeções, refletindo os reajustes anuais de medicamentos e produtos farmacêuticos.

A instituição destacou, ainda, que a alimentação no domicílio seguiu pressionada pela disparada de tubérculos, raízes e legumes, especialmente batata-inglesa e tomate, além da alta das carnes.

Para Matheus Pizzani, economista do PicPay, a  inflação de maio também refletiu a normalização parcial dos impactos provocados pela guerra no Oriente Médio, sobretudo nos combustíveis. "O IPCA-15 de hoje foi o primeiro indicativo de um movimento que já era relativamente esperado, sendo ele a normalização de alguns dos principais componentes afetados pelo contexto da guerra no Oriente Médio, em especial os combustíveis", afirmou.

O economista ressaltou que os preços administrados desaceleraram no período, beneficiados pela deflação de 1,47% nos combustíveis, enquanto os preços livres aceleraram de 0,57% para 0,69%, puxados pelos alimentos in natura.

Pizzani também chamou atenção para o comportamento dos serviços, que avançaram de 0,02% para 0,48% no mês. Embora parte do movimento tenha sido influenciada pela reversão das passagens aéreas, o economista avalia que o segmento segue exigindo cautela. "A ausência de elementos que justifiquem uma inflexão baixista na trajetória dos serviços se traduz em maior preocupação", afirmou.

Alívio

Após pressionarem a prévia da inflação em abril, o preço dos combustíveis registrou queda de 1,47% em maio, contribuindo para aliviar o IPCA-15 no período. Destaque para as quedas de preço do etanol, do óleo diesel e da gasolina, enquanto o gás veicular avançou no mês. O grupo transportes registrou deflação de 0,33%, beneficiado pela desaceleração das passagens aéreas, que subiram menos do que o esperado pelo mercado.

Segundo Leonel Mattos, especialista em inteligência de mercados da StoneX, a desaceleração dos combustíveis ajudou a conter parte das pressões inflacionárias associadas à guerra no Oriente Médio, mas os impactos do choque energético começaram a se espalhar para outros segmentos da economia. "As pressões de preço inicialmente ligadas ao setor energético começam a se disseminar para outros setores", afirmou.

Acima da meta

Em 12 meses, o índice acumula alta de 4,64%, permanecendo acima do centro da meta de inflação estabelecida pelo Banco Central. O resultado também é o mais elevado desde outubro do ano passado, quando a taxa alcançou 4,94% e superou o teto da banda de tolerância de 1,5 ponto percentual em torno da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de 3%.

Agentes do mercado financeiro elevaram novamente as projeções para a inflação oficial neste ano. Segundo a edição mais recente do Boletim Focus, a mediana das estimativas para o IPCA subiu de 4,92% para 5,04% nas projeções para o fim de 2026.

Mattos avalia que a composição do IPCA-15 indica que a inflação segue espalhada por diferentes segmentos da economia, reduzindo o espaço para cortes de juros no curto prazo. "As pressões de preço inicialmente ligadas ao setor energético começam a se espalhar para outros segmentos da economia", destacou o especialista.

A instituição avalia ainda que a perspectiva de juros elevados por mais tempo tende a favorecer a entrada de capital estrangeiro e sustentar o real, embora as incertezas geopolíticas envolvendo o Oriente Médio ainda limitem movimentos mais positivos do câmbio. "Enquanto não houver uma sinalização mais clara sobre a resolução do impasse no Estreito de Ormuz, o mercado financeiro global deve continuar operando em compasso de espera", disse Mattos.

Fonte: correiobraziliense

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